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Inspire-se com empreendedores sociais brasileiros III - Renato [Nossa Cidade]


Hoje darei continuidade a série Inspire-se com Empreendedores Sociais Brasileiros -- que já teve a oportunidade de entrevistar os jovens Rubenilson (Galt Vestibulares-DF) e Gérson (O que eu trouxe na bagagem?-RJ).

Na terceira parte da série, entrevistei o empreendedor social Renato Orozco, fundador do Nossa Cidade-MG e do capítulo de Minas Gerais da Awesome Foundation, que entre um compromisso e outro nos trouxe muito de sua experiência frente às iniciativas.

Sua entrevista traz muita profundidade na condução de um empreendimento social e a defesa de valores que todos nós compactuamos.

Caso você também seja um empreendedor social e queira dividir a experiência com nossos leitores, não deixe de entrar em contato.

Boa leitura e inspire-se você também!

1. Renato, em primeiro lugar, apresente-se para nossos leitores.

Sou uma pessoa apaixonada por empreendedorismo social.

Tenho mais ideias e projetos do que dou conta de executar, mas deixo-as guardadas e germinando em uma espécie de lista mental e retorno a prancheta assim que as condições são adequadas – ou quando consigo tempo.

Foi assim que fundei a Nossa Cidade, empreendimento social que atua em cidades pequenas brasileiras, e que comecei a sonhar em 2008 e se iniciou em 2012. Também foi assim com o capítulo da Awesome Foundation em Minhas Gerais – a vontade veio em 2012, o primeiro contato com a fundação em 2013 e o nascimento do capítulo só em 2015.

Atualmente, são dois outros projetos em fase de prototipagem, três com o projeto escrito e em busca de investidores e inúmeros outros em fase de ideação.

2. Conte-nos um pouco sobre os problemas encontrados e as soluções propostas pelo Nossa Cidade.

A Nossa Cidade existe por causa da defasagem social das cidades pequenas em comparação com as cidades grandes. No Brasil, são 5009 municípios com menos de 100 mil habitantes, aproximadamente 10% do total. É ali que vive 37% da população.

Na minha cabeça, uma cidade pequena deveria ser unida, com todo mundo atuando em prol do desenvolvimento do lugar onde vivem. Mas isso não acontece. E talvez seja por isso que, em comparação com as cidades grandes, a mortalidade infantil é 56% maior, as pessoas tem 41% menos anos de educação formal e a probabilidade de uma criança viver abaixo da linha da pobreza é 79% maior do que nas cidades grandes.

3. As pessoas que moram nas cidades pequenas não estão unidas?

Olha, na maioria das vezes não.

Existe muita rixa dentro das cidades, ressentimento e apatia. As rixas são de toda a espécie – às vezes são antigas rivalidades entre famílias, às vezes tem a ver com religião, mas sobretudo ligadas a disputa política na cidade.

Parece que as pessoas estão disputando algumas migalhas entre si, como quem controla a prefeitura ou um recurso prometido por algum deputado que visita a cidade em época de eleição. O pessoal ainda não atinou sobre o tanto de recursos que já existe internamente na cidade e como poderiam mudar radicalmente a cidade se trabalhassem em conjunto.

4. E a apatia?

As pessoas reclamam dos problemas da cidade e dizem que a prefeitura não faz nada, que ela é que deveria fazer algo. A mensagem da Nossa Cidade é de que elas próprias devem botar a mão na massa e começar a construir a cidade que querem.

Ninguém vai fazer isso por elas.

Não existe salvador vindo de fora e a prefeitura, mesmo se quisesse, não dá conta de mudar a trajetória da cidade.

5. E como surgiu o Nossa Cidade? Fale-nos brevemente sobre a trajetória desse empreendimento social e sobre os atores que o compõem.

A Nossa Cidade surgiu como um programa piloto, feito em parceria com a Universidade de Boston, a qual eu era um aluno de MBA com foco em gestão pública e de organizações sem fins lucrativos.

Em 2012, apresentei a ideia para a universidade e me deram um dinheiro para realizar um piloto. Ficamos dois anos só aprendendo com o piloto e pesquisando uma fórmula para empoderar as cidades pequenas.

Em 2014, concluímos que para empoderar a cidade é preciso investir em conhecimento, talentos e recursos. Atuamos com tecnologias sociais – que são soluções simples para resolver um problema social – para empoderar a cidade com conhecimento. Talentos e recursos já existem nas cidades em abundância. Mobilizamos pessoas e recursos dentro e fora da cidade para serem os combustíveis da transformação social.

6. E o Awesome Foundation Minas Gerais, do que se trata?

Somos um grupo de pessoas que fazem micro-filantropia.

Uma vez por mês cada um de nós colabora com R$ 150 e assim doamos um total de R$1500 para uma ideia de Minas Gerais que seja incrível (awesome em inglês). É uma forma de incentivar que projetos incríveis aconteçam.

7. Você pode falar um pouco sobre a Nossa Cidade?

Empoderamos comunidades, profissionais e lideranças, fomentando a descoberta e compartilhamento de conhecimentos, talentos e recursos.

Para empoderar com conhecimento, utilizamos as tecnologias sociais, que são produtos, métodos, processos ou técnicas utilizadas para resolver um problema social. Usualmente essas tecnologias são bem simples, de baixo custo e facilmente replicáveis e apropriáveis pela comunidade.

Somos uma associação sem fins lucrativos com quase 90 associados em mais de 20 cidades.

8. Quais as principais competências que um empreendedor social deve ter para atuar no Brasil?

Resiliência, criatividade e colaboração.

O empreendedor social no Brasil deve ser bastante perseverante. É muita burocracia e dificuldade para fechar negócios. Deve ter criatividade para gerar impacto social de forma barata. Finalmente, percebo um campo bem propício para a colaboração, de modo que ganha o empreendedor capaz de fazer parcerias e trabalhar junto com outros atores sociais.

9. E quais as principais dificuldades encontradas por um empreendimento social em nosso país?

As mesmas encontradas pelo empreendedor brasileiro: imposto alto, burocracia, legislação trabalhista complicada. Também é difícil encontrar sócios e investidores pois as pessoas ainda não entende o empreendedorismo social, confundindo com filantropia ou organizações sem fins lucrativos (ONGs).

10. Você faria algo diferente se estivesse começando agora?

Sim, teria investido menos tempo em captação de recursos e mais tempo na construção do negócio. Também investiria mais tempo e recursos na busca por sócios. A medida que o empreendimento social cresce, você precisará de pessoas na equipe que consigam resolver os problemas e que estejam 100% comprometidos com o projeto.

11. Como você vê esse movimento que vem crescendo no mundo, e agora no Brasil, em que a sociedade civil procura resolver os problemas da sociedade por meio de mecanismos como associações sem fins lucrativos e negócios sociais, ao invés de simplesmente esperar que o Estado os resolva?

Eu estou convicto que o sistema político-representativo do Brasil (e muito provavelmente do mundo) está falido. Somos liderados por pessoas que não nos representam e hoje o Estado mais atrapalha do que resolve. Some-se a isso a degradação do meio ambiente e o consumismo do ser humano que não se traduz em felicidade, e é fácil concluir que cedo ou tarde esse sistema todo ruirá, pois não é sustentável.

Eu acredito que o novo mundo que está para surgir é baseado no protagonismo das pessoas para a resolução dos problemas coletivos. O Estado não será mais peça central no provimento do bem-estar das pessoas, mas sim uma coletividade de indivíduos empoderados que comungarão dos seguintes valores (que são os valores da Nossa Cidade): Humanismo, Humildade, Diversão e Prazer, Otimismo, Persistência, Colaboração e Respeito.

12. Deixe uma mensagem final para os futuros empreendedores sociais brasileiros.

O ser humano está desconectado de si mesmo, um dos outros e do planeta.

Para mim, o movimento do empreendedorismo social vem como uma resposta a esse vazio.

É uma forma de nos re-conectarmos.

Tornar-se um empreendedor social é, acima de tudo, um ato de reencontrar-se.

Ainda estamos no princípio do movimento de empreendedorismo social no Brasil. Porém, já existe um certo ecossistema de apoio para esse tipo de empreendedor. Destaco aqui alguns elementos que me fazem acreditar que fazer o bem é bom negócio.

Como qualquer empreendimento, nada é construído sem muito trabalho duro e perseverança. Porém, a recompensa vem na realização pessoal de estar trabalhando para construir algo maior do que o próprio umbigo.

Muita luz e sucesso na condução desses e outros projetos, Renato, e muito obrigado pela entrevista!

Perdeu as outras entrevistas da série Inspire-se com Empreendedores Sociais Brasileiros? Clique AQUI e AQUI para acessá-las.

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